Warren Ellis, Douglas Kim e nossos incentivos culturais

19 dezembro, 2007

Um tempo atrás eu tava conversando com o Gonzo sobre a possibilidade do Warren Ellis (o roteirista de HQ britânico, e não o músico australiano) ser algo que será chamado de “intelectual do século XXI”.

Não é cronologicamente falando, mas sim pelo jeito de pensar do sujeito.

Por mais que esperneiem e reclamem, é necessário aceitar que o mundo mudou, garotada. A era industrial acabou e entramos numa nova era, que será chamada de Era Virtual ou Era Cibernética ou Era Adriânica ou algo assim. Vivemos na sequência de um daqueles risquinhos que dividem a história humana naquelas linhas do tempo de representação de nossa evolução.

Para o bem ou para o mal, mudanças desse tipo influenciam totalmente a forma das pessoas pensarem. Te garanto que o pessoal das corporações de ofício e afins chiavam bastante apontando para aqueles jovens industriais e suas idéias muito loucas.

Um dos pontos radicais dessa mudança é o mundo de informações disponíveis. Nunca existiu uma época em que tudo que se pensa e faz no mundo é tão facilmente conhecido e estudado.

O resultado disso acaba sendo uma facilidade maior de se perder na superfície. O link, mau usado, não te aprofunda no assunto mas sim te joga de assunto em assunto, te dando uma vasta gama de informações, mas com todas tão rasas quanto uma piada do Ary Toledo. O pensamento linear, como conhecemos, pode estar agora caminhando para a extinção, para ser substituído por algo levemente diferente, com uma maior mixagem de raciocínios e citações.

A diversidade de assuntos e informações induz à falta de foco, então a substituta da profundidade temática talvez venha a nascer da associação feroz de assuntos e idéias.

Não dá pra gente dizer agora o que será efetivamente o intelectual de hoje (afinal, a melhor forma de saber o que é feito ou dito de mais relevante hoje em dia é esperar o futuro, pois contar os frutos de cada semente é o que, em última instância, define a importância de cada coisa…) mas, em nosso debate cervejístico (entre eu e Gonzo, não entre eu, Warren Ellis e Ary Toledo – embora eu deva admitir que daria meu braço esquerdo para sentar numa mesa de bar dessas…), um dos pontos da defesa  de Warren para o cargo era:

O intelectual que refletir essa mudança de pensamento deverá ter a capacidade de processar as informações tão rápido quanto surgem. A dificuldade vai ser essa: extrair a profundidade de todo o ruído disponível, rearranjando tudo em peças sintéticas para a elaboração de novas teorias.

O Ellis faz isso, variando nos seus textos entre histórias absurdas, análises cabeçudíssimas de teorias físicas, pedofilia no Second Life e textos sobre os caras que tatuaram de azul a parte branca dos olhos deles como manifesto de Body Modification.

Não tão tecnológico quanto o tio Warren, mas possuidor da mesma metralhadora citadora, é o Douglas Kim.

Olha. Não precisa concordar com o que o cara fala. Ou o que ele faz link.

O ponto é o que ele cita, o que ele amarra e como ele faz.

(e também o fato do cara escrever pra caralho. isso ajuda MUITO)

Parem de querer ler apenas aquilo que diz o que você quer ouvir. Leia algo apenas para pensar qual sua opinião a respeito.

O único problema é que o Kim tem um a certa tendência a matar blogs e apagar posts. Por exemplo, o blog dele hoje só tem dois posts.

Bom, e um deles  é um agrupamento de citações de um blog da Veja (é, a revista da Abril). Não, não leio a revista. Mas o Kim achou isso. Copio do blog dele para guardar o registro e tentar mostrar pra vocês qual o tipo de garimpo de informações que o homem faz. É bom dizer que não é só isso que ele faz. Também surgem pequenos textos narrativos, poesias, frases. Foda.

Com vocês: mr. DK

16.12.07

didatismo

Alguns não lêem o Reinaldo Azevedo por questão ideológica. Tudo bem. Por isso vou colar aqui três posts didáticos sobre a premiação da Biblioteca Nacional e sobre a Bolsa de Criação Literária da Funarte.

I

“O Diário Oficial da União de ontem (13/12) publica o resultado dos prêmios literários da Biblioteca Nacional e da bolsa de incentivo à criação literária da Funarte.

No caso da Biblioteca Nacional, copio o que está lá:

2.Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
Categoria: Ensaio Social
Comissão Julgadora:
Bárbara Freitag
sabel Lustosa
Maria Angélica Madeira
Vencedora: Maria Francisca Pinheiro Coelho, com a obra José Genoino – escolhas políticas, publicada pela Editora Centauro.

Sim, vocês entenderam direito. O livro que canta as glórias de um dos chefes do mensalão, um dos 40 indiciados pelo STF, irmão do patrão do cuecão de ouro, foi premiado pela Biblioteca Nacional. Mas esperem. Não é tudo. No caso da Funarte, entre os contemplados com uma bolsa de R$ 30 mil, está:

meiaoito – 68 motivos de 68, de Luiz Arthur Toríbio (nº de inscrição 237), de Brasília/DF (nota 205)

O que isso tem de especial? Duas coisas:

– Luiz Arthur Toríbio foi chefe da Assessoria de Comunicação Social (DAS 101.4) do Ministério da Cultura, a que está subordinada a Funarte, até 24 de abril do ano passado.

– A Funarte é de uma rapidez impressionante: as inscrições para bolsa terminaram no dia 10 de dezembro. No dia 12, já se tinha o resultado (para ver o Diário Oficial, clique aqui).”

II

“Biblioteca Nacional: ação entre amigas e parceiras
Ai escreve o leitor sobre o prêmio da Biblioteca Nacional conferido a Maria Francisca Pinheiro Coelho, autora do livro sobre José Genoino (ver notas abaixo):

Olha que beleza, Reinaldo, a socióloga submarxista Maria Francisca é co-autora de um livro sobre a Bárbara Freitag (Itinerários de Bárbara Freitag, UnB, 2005), que agora premia a Maria Francisca. O “ensaio” da Maria Francisca no livro sobre a Bárbara Freitag chama-se Diálogo com o Marxismo. Antes, em conjunto com a própria Bárbara Freitag, ela expeliu Marx morreu: viva Marx! (Papirus, 1993).

É isso aí. Trata-se de uma autêntica ação entre amigas e parceiras, mediada por uma instituição do estado. Ainda bem que o tema, José Genoino, confere especial dignidade a essa intensa e viva relação intelectual, não é mesmo?”

III

“Premiação em que a jurada premia a colega com quem escreve livro pode ser tudo, menos séria. (…) Concorria na mesma categoria, por exemplo, D. Pedro II – Ser ou Não Ser, de José Murilo de Carvalho. Eu duvido que a tal Francisca escreva melhor do que Carvalho: eu duvido que Genoino seja mais interessante do que D. Pedro II. Eu duvido que haja mais pesquisa histórica no livro premiado do que no preterido.”
postado por dk—

Bonito, muito bonito.

E apenas para fazer um último comentário. Sim, admito que é meio pedante o Gonzo e eu ficarmos numa mesa de bar discutindo, de forma tão rasa quanto nesse post que fiz agora, questões como intelectualidade, tempos modernos e afins. Estamos tentando melhorar, procurando assuntos mais dignos.

Eu por exemplo já deixei anotado, para nossa próxima cerveja, essa história que achei num link do Warren Ellis sobre o cara que pagou para lutar com um chimpanzé.

2 Responses to “Warren Ellis, Douglas Kim e nossos incentivos culturais”


  1. Cordel das Bol$a$ Literária$ e outras mamatas…
    Gustavo Dourado

    É golpe de todo tipo:
    Na internet e no real…
    Fantasmagoria literária:
    Assombram o textual…
    Mamam nas tetas da Viúva:
    Nepotismo leiteral…

    Tem muita gente sabida:
    Surrupiantes do Erário…
    Clientelismo, malandragem:
    Para além do dicionário…
    A maracutaia é surreal:
    Corrompe o vocabulário…

    Premiam de qualquer jeito:
    No emundo da lixeratura…
    Doam bolsas do E$tado:
    Nem precisa de leitura…
    Jogo de cartas marcadas:
    Do nascer à sepultura…

    Julgam-se iluminados:
    Pervertem a comunicação…
    Komunicólogos – arrivistas
    Chega de descaração….
    Os “deputados” literais:
    Sugam as mamas da Nação…

    Ressucitaram João Grilo:
    Macunaima e Cancão…
    Pedro Malazartes ataca
    No Planalto da Nação…
    30 mil dobrões de ouro:
    Na lítera-corrupção…

    Mais um escândalo literário:
    Tem ares de Mensalão…
    Sanguessugas sequiosas
    Chupam o nosso coração…
    Lá na Redação do Céu:
    Foi notícia de plantão…

    Concursos, prêmios, medalhas:
    Perdem credibilidade…
    Nem precisa fazer prova:
    Ganha-se com facilidade….
    Têm malandros premiados:
    Nos palácios da cidade…

    A velha ação entre amigos:
    Julgadores sem moral…
    Falta ética, compostura:
    Etc e coisa e tal…
    A comídia esconde o fato:
    Não aparece no journal…

    Falcatruas, bandalheiras:
    Parecem tudo normal…
    Salve São Graciliano:
    Façam um pelo sinal…
    Vade Retro Satanás:
    Eta gente sem moral…

    Brincam com nosso dinheiro:
    O imposto é escorchante…
    Leio Finnegans – Ulisses:
    Rosa, Machado e Dante…
    O povo quer pão-cultura:
    Não ser mais signorante…

    Fabricam mi(n)tologias:
    Ídolos de pés de barro…
    PHdeuses de araque:
    Amam caviar e karro…
    Júri que nos desengana:
    Tão bisonho, tão bizarro…

    Será coisa de quadrilha?!:
    Prefiro a de São João…
    Em Drummond, me inspiro:
    Chega de conspiração…
    Respeitem a Coisa Pública:
    Basta à Corrupção…

    30 moedas de ouro:
    Judas também ganhou…
    Por aqui esse preço:
    Muito se multiplicou…
    Chafurdam-se na lama podre:
    A arte se emporcalhou…

    Eu vou mudar de toada:
    Pôr a Ética no enredo…
    Cultivar a boa Estética:
    Esse é um bom segredo…
    Ficar de orelha em pé:
    Essa gente mete medo…

    É preciso ter vergonha:
    Para que se enganar?!
    Ética e eqüidade:
    No processo de julgar…
    Que a Justiça prevaleça:
    A coisa tem que mudar…

    Gustavo Dourado
    http://www.gustavodourado.com.br

  2. Sr. Minor Nauhn Says:

    Vi, fui e voltei.


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