Old Grey Whistle Test

3 outubro, 2007

Assoviar foi um dos primeiros contatos do ser humano com o mundo das alturas melódicas. Mesmo que a voz, articulada em palavras, tenha dado forma ao canto, o assovio (ou assobio, você escolhe), ao imitar o som dos pássaros, fez os primeiros homo sapiens terem uma noção de que a melodia podia ser incorporada ao cotidiano, e provavelmente de origem às mais primitivas formas de música, especialmente na forma dos primeiros instrumentos de sopro.

A própria natureza do assovio remete à melodia fácil, “grudenta” – e assim, milhares e milhares de resenhistas já chamaram, em algum momento, um som mais acessível e pegajoso de “assoviável”. O que não significa que o assovio deva ser menosprezado. Pensa no que seria de um cara culto e virtuoso como o Andrew Bird sem o seu habilidoso e, muitas vezes, grave assovio – saca só “A Nervous Tick Motion Of The Head To The Left”, gravada e ao vivo.

As baladas são quase uma tradição do hard rock, quase um imperativo mercadológico: ao mesmo tempo em que as bandas faziam os guris baterem a cabeça com o som pesado, faziam as garotas suspirarem ao som de suaves juras de amor, ora ao som de violõezinhos, ora com guitarras estridentes e power ballads. Do Metallica ao Extreme, dos Scorpions ao Bon Jovi, existem três coletâneas chamadas Love Metal para comprovar o sucesso do “gênero”.

Claro que o Guns N’ Roses , com todo o público feminino angariado pelos shorts apertadinhos de Axl Rose, não ia deixar de derreter as gatinhas com um pouco de som açucarado. A mais certeira dose de sacarina provida pelo quinteto californiano veio na primeira música do lado B do segundo álbum da banda, G N’ R Lies: “Patience”.

Talvez um dos assovios mais marcantes da música pop, ao invés de um curto riff, o biquinho de Rose ia delineando uma melodia complexa, subindo e descendo, enquanto uma trama de violões (e nenhuma percussão) faz a cama. A letra fala de um cara que acabou de se apaixonar por uma garota que não pode estar perto dele – e por isso, pede paciência à garota.

BALELA. Na verdade a música é sobre uma broxada. Certo, começa com um “derramei uma lágrima porque estou com saudades” e “penso em você todo dia”, mas coisas como “sento na escada porque eu prefiro ficar sozinho” e “às vezes eu fico tão tenso”… Sei, Axl (tudo bem que os créditos da música vão pro guitarrista Izzy Stradlin). No final da canção, Axl abre o berreiro de vez, canta que “tem andado pelas ruas a noite” e que “precisa de você”. O clipe da música alterna imagens de uma suposta “gravação da música” (com o Axl balançando de ladinho no final) e cenas bizarras como o Slash deitado numa cama segurando uma cobra na mão enquanto uma mulher tira a roupa do lado dele – e não rola mais nada. Mas fica tranqüilo Axl, isso acontece com todo mundo, né?

O Teenage Fanclub faz parte da geração escocesa que varreu o mundo indie (tá, varreu é um exagero, deu uma espanadinha) a partir da coletânea em cassete C86, lançada pelo semanário londrino New Musical Express. Começando com um tanto de barulho, o TFC foi moldando o seu som para uma direção mais melódica, e chegou ao auge do pop perfeito (influenciado tanto por Big Star quanto pelos Byrds) no álbum Grand Prix.

Obra-prima das melodias assoviáveis, o disco é praticamente feito apenas de canções de amor – como se pudesse existir algum outro motivo para se fazer um álbum tão doce. Entre as canções, está a balada “Mellow Doubt”, entre a ingenuidade e o desespero. Base de violão simples e um riff melódico, a música se constrói com as harmonias vocais, bateria leve, e a voz suave e dolorida de Norman Blake. A letra fala de um amor perdido, que vira quase uma paixão platônica: “Dói em mim/ Só de pensar em você/ Nas coisas que juntos/ Nunca iremos fazer”, enquanto o refrão explicita a sinuca de bico – “Estou com problemas/ E eu sei disso/ As coisas que eu sinto/ Eu não posso demonstrar/ Mas esses sentimentos/ Não vão embora”. Duas estrofes e dois refrões depois (com direito a um “Eu tento te abraçar/ Sozinho na minha cama”), o assovio. Aqui ele vem como um solo (mesmo que substituindo uma estrofe), com estrutura e tudo: violão de base, enquanto o assovio dialoga com uma voz anasalada apenas resmungando a linha melódica, como se o TFC declarasse suas intenções – o assovio é melhor que a guitarra, a melodia é melhor que o peso. Um assovio diz tudo sobre o TFC e seus sentimentos que não vão embora.

O nosso terceiro assovio ressoou 2006 afora e entrou 2007 adentro – numa canção para dançar feita por suecos (não, nada de Abba dessa vez). Baixo, bateria e percussão, meio lo-fi, e um assovio com um pouquinho de eco dão o tom da pista. A letra começa com um xaveco e evolui para aquele momento em que o casal recém-quase-formado reconhece um no outro as intenções, ainda que prefira deixar a tensão sexual de lado e focar no blá blá blá: “tudo com o que eu me importo é em conversar/ conversando aqui, eu e você”. No refrão entra uma percussão quase-africana – pelo menos o mais africano que um grupo de suecos pode chegar.

Embalada diretamente pelo assovio, “Young Folks” foi longe, ultrapassando o mundo indie onde ela nasceu. Foi parar numa mixtape de rap, com o sempre descolado Kanye West mandando um freestyle em cima da base. Virou trilha sonora de uma dezena de comerciais (pelo menos) ao redor do mundo, da At&T à Budweiser, da série “The Big Bang Theory” ao Napster. Tocou em seriados como Grey´s Anatomy, Gossip Girl e Dirty Sexy Mone, entre outros. Foi trilha do desfile da Banana Republic e do videogame Fifa 08 – até mesmo a cantora alemã Nena (de “99 Luftballons”) fez uma versão da música, chamada “Ich Kann Nix Dafür” (“Não é minha culpa”). Um grande feito para um mero assovio, não?

Não, não: os assovios são a matéria prima da música pop. Pense nisso quando você se pegar assoviando pela rua aquela música que não sai da cabeça – ou do iPod.

One Response to “Old Grey Whistle Test”

  1. Adriano Says:

    Eita, péra, pára, segura um minuto aí…
    Digo, o texto tá foda cara, bem legal, mas tem uma informação aí que me pegou de surpresa…

    Nena? Ainda viva? E produzindo???


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