“Como cânhamo ou cachaça certeira”

21 agosto, 2007

 

Na primeira parte (se é que existirão outras) da sua fragmentada autobiografia, Bob Dylan conta que, quando começou com essa história de ser músico, ele cansou de formar bandas só para mais tarde ver alguém rouba-las porque tinha melhores “credenciais e conexões”. Com uma família não muito influente na pequena Duluth, Minnesota, Dylan não tinha condições de botar seus grupos para tocar nas apresentações que mais davam dinheiro: casamentos, pequenas convenções, aniversários em salões de hotel. “Estava começando a ficar claro para mim que eu teria que aprender a cantar e a tocar sozinho e não depender de uma banda até que pudesse pagar e manter uma. Conexões e credenciais teriam que se tornar irrelevantes” (Dylan, na péssima edição da Planeta para o primeiro volume de suas Crônicas).

 

Ou seja, o folk representou, para Dylan, o seu próprio punk rock, seu lo-fi: um do it yourself baseado na voz e no violão. E, assim como o empresário da Decca que falou para os Beatles que “bandas de guitarra não estavam na moda” estava correto, o folk também não era a sensação da juventude beat norte-americana. Assim como os Beatles fizeram de “bandas com guitarras” uma moda definitiva por décadas, Dylan colocou o folk no pedestal máximo da “sofisticação” acadêmica (até que, uns dois anos depois, ele resolveu romper com tudo que criara – pelo menos na visão acadêmica da coisa).

 

Mas bem, estamos fugindo do assunto. Se o folk representou o do it yourself para o Dylan, fez o mesmo com Hélio Flanders, o homem (ou guri mesmo) por trás do Vanguart. Começou tudo depois de desfazer sua banda de glam rock (vai saber…) e se trancou no quarto com violão, teclado e computador. Depois de dois discos caseiros, embrenhou-se América Latina adentro (na verdade, atravessou a fronteira mato-grossense rumo à Bolívia), e na volta arranjou um grupo para tocar suas composições – o Vanguart que a gente conhece.

 

O álbum de estréia da banda tem um quê de disco de transição, como se o Bringin´It All Back Home não marcasse tanto pela estréia da eletricidade, mas pela estréia da identidade mais sólida de Dylan. Explicamos: cantando inicialmente em inglês, o Vanguart avançou aos poucos para o idioma português e mesmo para uma sonoridade mais local. Das 13 músicas compostas por Flanders para o disco, 6 são em inglês, 6 em português e uma em espanhol (a décima quarta canção é “Beloved”, de autoria do baixista Reginaldo Licoln).

 

A capa do disco é, por si só, uma variação da “capa-citação” de Bringin´ It All Back Home. Os amigos e figurinos brincam (e o produtor Bruno Montalvão aparece dentro de um porta retrato), enquanto o acordeom e as violas-de-cocho entregam, junto com a vegetação, o clima pantaneiro do álbum. Apesar dos instrumentais estarem claros e apesar das referências musicais serem preponderantemente gringas (Zimmerman, Neil Young, rock inglês noventista), paira um clima úmido, “como cânhamo ou cachaça certeira”, de mormaço preguiçoso e pesado, ao som de muriçocas voando tentando picar as pernas mais destapadas – naquelas ondas de calor que fizeram os locais dar o apelido de Hell City para Cuiabá.

 

“Antes Que Eu Me Esqueça”, “Just See Your Blue Eye See”, “Cachaça” – mesmo às vezes com o acento saxão, o clima tem a ver com a nossa versão do delta do Mississipi, mas passadas pelo filtro pós-cibernético do Radiohead pré-Kid A. O Vanguart não esquece o terceiro mundo: ritmos semi-latinos nas veias abertas de “Los Chicos De Ayer”, aproximando tristes Nicaráguas, Panamás e Cuiabás, “South America – it´s just America”; enquanto a segunda parte de “Cosmonauta” desenvolve-se num carnaval quase Mombojó.

 

Apesar da já considerável residência paulistana (ou até mesmo por causa dela), o Vanguart enxerga claramente as fraturas expostas naqueles cantos mais esquecidos do Brasil – aquelas fronteiras que nosso litoral metropolitano ignora, voltado ao próprio umbigo. Se em Ok Computer o Radiohead colocava a fratura da comunicação entre homem e máquina como tema, Vanguart, o álbum, também mostra um mundo quebrado. Fins falsos, mudanças de andamento, “o que importa é o que te quebra em duas cidades”, “que faz rachar as velas”, “eu vou quebrar teus olhos”. Olhos, aliás, que são outra obsessão de Flanders, blue ou cor de anis, que não estavam lá ou cheios de coisas novas – ver, enxergar, tentar explicar a visão em palavras e falhar magnificamente, saber que “ver” é só a ilusão da realidade, que os olhos são frágeis janelas.

 

Em certos momentos, as influências musicais do Vanguart soam límpidas e diretas: Radiohead em “Miss Universe”, Dylan em “The Last Time I Saw You”, enquanto “Beloved” vai diretamente ao rock alternativo norte-americano da primeira metade dos 90. Mas realmente se aproxima da genialidade pop em “Semáforo”, com refrão grudento sem ser besta, e no acelera-e-pára da balada-do-pistoleiro “Hey Ho Silver”, e encontra bons momentos na sonâmbula “Cachaça”, com guitarras e órgão fritando como os olhos que insistem em não dormir. Como diz Flanders em “Christmas Crack”, “there are new things in my eyes and they must be told” – pode contar, Hélio, nós queremos ouvi-las.

(Vanguart está disponível nas principais bancas esse Brasilsão afora [espero], encartado no número 21 da revista Outracoisa, por R$ 16,90)

2 Responses to ““Como cânhamo ou cachaça certeira””

  1. katianogueira Says:

    hoje é teeeeeeerça-feira…

  2. Adriano Says:

    Pô…
    Antes eu só queria ouvir o disco… Agora eu TENHO que ouvir o disco!

    Tô falido, cara… Você não devia ter feito isso comigo pô! heheh


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: